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O medo artístico ou medo estético é um efeito de recepção que se baseia da emulação de um medo real estimulada por uma obra artística. Por mais que o tema já seja abordado nos estudos literários desde a antiguidade clássica, é só a partir do século XVIII, com o surgimento do gótico literário, que o medo será um efeito privilegiado tanto na ficção quanto na teoria e crítica feitas sobre esta.

Origem Editar

Aristóteles, ao abordar a tragédia no livro VI da Poética, considera que esse tipo de obra tem como função criar em seu leitor duas emoções fundamentais (ou dois efeitos estáticos), a piedade (Ἔλεος) e o temor (φόβος). Visto que ambas emoções são "negativas", ou seja, causam certo desconforto no público, a tragédia se desenvolve a fim de que, em seu desfecho, haja uma purificação desses elementos, num processo denominado por Aristóteles de catarse (do grego κάθαρσις, derivado de κάθαρως que pode tanto significar purificação, limpeza, como liberdade).

Mesmo que suas considerações se aplicassem inicialmente a tragédia, a tensão entre a geração do temor e o prazer decorrente da catarse desse efeito, pode ser visto, na antiguidade clássica, em outros tipos de arte. As guerras, a presença de criaturas bestiais ou a descrição do submundo nas epopeias, por exemplo, pode ser visto como uma importante fonte de medo artístico nas obras greco-latinas.

Ainda na antiguidade, outra reflexão de destaque para os estudos do medo artístico está na obra Peri Hypsous, de Longino. Mesmo que não trate diretamente do tema, Longino aborda um efeito da retórica clássica conhecido como Sublime. Diferente dos demais discursos, que levam seu ouvinte a persuasão através de processos lógicos, o sublime seria responsável por conduzir o público ao êxtase, deixando este em estado de choque, em Adynasía (impotência, indigência, impossibilidade). A relação desse efeito como medo artístico, porém, só se estreitará com as observações de Edmund Burke, já no século XVIII.

Retomada Editar

Em 1757, O filósofo irlandês Edmund Burke, ao publicar A Philosophical Enquiry into the Origin of our Ideas of the Sublime and Beautiful, aprofunda as relações entre o conceito do sublime e o medo artístico. Para o autor, a dor e o prazer, par de oposição desde a antiguidade é visto de forma diferente e graças a essa observação é possível desenvolver a primeira teoria do funcionamento do medo artístico.

Burke não acredita que a ausência do prazer seja necessariamente uma dor, da mesma forma que a ausência da dor não é, em si, um prazer. O filósofo percebe, porém, que existe uma sensação positiva na interrupção de uma dor, mas opta por chamar tal sensação de deleite. Em situações reais, esse deleite não é proveitoso, uma vez que, para alcançá-lo, é necessário passar por um processo doloroso. A arte, porém, como Aristóteles já observara, cria, justamente, um ambiente no qual é possível emular certas situações análogas à dor (ou ao sofrimento, ao medo e, em última instância, à própria morte), cessando-as posteriormente e produzindo um deleite sem dor.

Burke, contudo, não se limitou a refletir sobre o funcionamento desse efeito estético, mas dedicou, também, capítulos a uma extensa descrição de elementos que auxiliariam a produção do medo artístico, como a presença do desconhecido como elemento crucial para sua eficaz aplicação.

Modernidade Editar

As ideias de Burke, ao encontrarem um ficcionista que refletisse sobre proposições similares, possibilitou, enfim, a gestação de uma obra integralmente voltada para a produção do medo artístico na arte. Através do ensaio Supernatural Horror in Literature (1939), Howard Phillips Lovecraft cria uma verdadeira poética do medo artístico, descrevendo que processos levariam o leitor a ser tomado pelo que ele chama de medo cósmico, sentimento bem afim à ideia burkeana de sublime.

Outro escritor cujas colaborações para o estudo do medo artístico são valiosas é Stephen King, que produz em Dance Macabre (1981) um compêndio impressionante de análises do medo artístico na literatura e no cinema. Ele parece ser, também, um dos primeiros a ter um cuidado conceitual na nomenclatura do gênero que se dedica à produção do medo artístico, criando a distinção entre horror, terror e repulsa.

Na contemporaneidade, junto à popularização dos estudos sobre o fantástico, parece crescer o interesse acadêmico pelo medo artístico, como podemos perceber em obras como Pedagogia dos monstros (2000), organizado por Tomaz Tadeu da Silva, e The Philosophy of Horror, or Paradoxes of the Heart (1990), de Noël Carroll.

Contribuições externas Editar

Além das reflexões diretamente relacionadas ao medo na obra de arte, outros trabalhos se mostram muito produtivos e muito utilizados para pensar essa temática. Freud, por exemplo, através de obras como o artigo “das unheimliche” ou o no texto “O mal-estar na civilização” fornece uma base psicológica para tentar entender o medo em si e, consequentemente, o medo artístico.

Se o medo, enquanto emoção, precisa de um fundamento da área da psicologia, enquanto manifestação cultural, recebe grandes colaborações da sociologia e antropologia, como a obra Purity and danger: An Analysis of Concepts of Pollution and Taboo (1966), da antropóloga Mary Douglas, e Liquid Fear (2006), do sociólogo polonês, Zygmunt Bauman, ampliando o campo conceitual do medo em diferentes áreas do conhecimento humano.


Bibliografia Editar

ARISTÓTELES, HORÁCIO, LONGINO. A poética clássica. São Paulo: Ed. Cultrix, 2005.

BAUMAN, Zigmunt. Medo líquido. Tradução de Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.

BURKE, Edmund. Uma investigação filosófica sobre a origem de nossas idéias do sublime e do belo. Tradução, apresentação e notas de Enid Abreu Dobránszky. Campinas, SP: Papirus, 1993. [1759]

CARROLL, Noël. A filosofia do horror ou paradoxos do coração. Tradução de Roberto Leal Ferreira. Campinas, SP: Papirus, 1999.

FRANÇA, Júlio. As relações entre “Monstruosidade” e “Medo Estético”: anotações  para uma ontologia dos monstros na narrativa ficcional brasileira. In: Anais do XII congresso internacional da Associação Brasileira de Literatura Comprada, 2011, Curitiba, PR, - CENTRO, CENTROS; ética e estética / Benito Martinez Rodrigez (org.). Curitiba: ABRALIC, 2011b. e-book.

FREUD, Sigmund. O estranho. In:_____. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud; edição standard brasileira. V. XVII. Tradução de Eudoro Augusto Macieira de Souza. Rio de Janeiro: Imago, 1996. pp. 233-269.

_____. O Mal estar na civilização; edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Vol. XXI. Tradução de Eudoro Augusto Macieira de Souza. Rio de Janeiro: Imago, 1974.

KING, Stephen. Dança macabra: o fenômeno do horror no cinema, na literatura e na televisão dissecado pelo mestre do gênero. Tradução de Louisa Ibañez. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007.

LOVECRAFT, Howard Phillips. O horror sobrenatural na literatura. Tradução de Celso M. Paciornik. Apresentação de Oscar Cesarotto. São Paulo: Iluminuras, 2007.

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